Uma tarde na quinta dos museus – uma designação intimista para um espaço único em Lisboa – será certamente um programa a fazer, em dia de semana ou não, mas certamente uma experiência única.

Na antiga quinta da duquesa, como esta referenciada na cartografia do início do século XX, estão situados dois museus, o Museu Nacional do Traje no Palácio Angeja-Palmela e o Museu Nacional do Teatro no Palácio do Monteiro-Mor, integrados numa propriedade murada conhecida atualmente como o Parque Botânico do Monteiro-Mor. É pois matéria para uma tarde.
 
No Palácio Angeja-Palmela, o Museu Nacional do Traje oferece uma exposição sobre a história do traje, num edifício que, por si só, vale uma visita. Quem aqui chega é surpreendido, logo após passar os portões, pela descoberta de um aprazível pátio interior que antecede o próprio edifício, que apresenta desse lado a sua fachada principal.

Para aceder à exposição sobre a história do traje, instalada no primeiro andar, passa pelas arcadas e sobe a escadaria nobre e começa a reconhecer um motivo decorativo recorrente: a águia. Com efeito, este símbolo está representado desde o exterior – nos candeeiros que ladeiam o arco central da galilé por onde se entra – até aos tetos das várias salas, curiosamente sempre e apenas nos estuques.

No primeiro piso, o percurso tanto se pode iniciar no traje Barroco e Rocaille como no traje Império: na verdade, as coleções de peças daquele estilo obrigam, pela sua antiguidade e por exigência da matéria têxtil, a uma rotação das peças intercalada com tempos de descanso. Nesses intervalos são apresentadas exposições temporárias das coleções do museu.

A decoração interior do Salão Nobre, com os seus lambrins de azulejos setecentistas representando cenas da vida quotidiana de uma nobreza rural ou paisagens fluviais e as pinturas mais intimistas e de sentimentos das bandeiras das portas e das próprias portas dos armários da sala seguinte, predispõe o visitante para o olhar concentrado e atento que o traje, do estilo Império à Belle Époque e sem esquecer o Romântico.

A apresentação do traje (de) interior explica como o recurso a soluções complementares à indumentária permitiam obter os volumes que definiam a silhueta nestes vários estilos e as formas de vestir no interior do lar.

Contudo é nas salas dedicadas ao traje usado ao longo do século XX que a evolução da moda e das silhuetas, dos comprimentos de saia, a introdução de novas peças e novos materiais, se faz notar de forma mais acentuada, documento evidente que são da contínua e cada vez mais acelerada evolução tecnológica do homem e da sociedade que nos conduz a uma globalização de que a moda e o traje são atores e testemunhos.

A visita à exposição, na delicada luz que a preservação dos têxteis requer, convida para um passeio no Parque Botânico, do jardim histórico até ao roseiral, fronteiro ao Museu Nacional do Teatro e sugestão para uma próxima visita, com o regresso pelos prados e pela mata, sem esquecer as hortas urbanas, um projecto que o Museu Nacional do Traje vem desenvolvendo com a comunidade.